sábado, 10 de novembro de 2007

Saudade




"Combinaram encontrar-se no parque às cinco. O sol raiava fracamente pelas árvores castanho-douradas e o frio lembrava que o Verão passara.
Sentada no banco à frente da fonte, local habitual de encontro, esperava-o ansiosa. Passava pouco das cinco quando chegou.
Ela levantou-se e sorriu. Ele logo se desculpou pelo atraso. Ela voltou a sorrir.
Sentaram-se os dois no banco e começaram a conversar. Há já algum tempo que não o faziam.
Conversaram sobre diversos assuntos de mútuo interesse até que, de olhos brilhantes e sorriso no rosto, ele referiu a paixão que sentia por uma rapariga que conhecera.
Perante a sua confissão, uma lágrima correu o rosto dela, removendo-a, de seguida, com um gesto suave pela sua face.
Ele não notou a reacção da amiga e não conseguiu ler-lhe a expressão dos seus olhos pois ela sorria, ouvindo as suas histórias.
Uma folha caiu sobre as mãos dela. O Outono tinha chegado. A voz do amigo passara a ser um zumbido distante. Os seus pensamentos tinham-se apoderado do momento.
Sentia saudade do que nunca tivera, sentia o vazio no coração e uma vontade imensa de chorar. Queria tê-lo mas não podia fazê-lo; queria dizer-lho mas não possuia palavras para tal; queria abraçá-lo mas o abraço não seria correspondido.
O imaginário, em tempos, tomara posse do real e, agora, tudo lhe parecia tão pequeno.
O vento soprou e ela voltou a ouvir a voz dele. Olhou-o nos olhos e sorriu. Não pronunciara uma única palavra, só ouvira.
As folhas voaram com o vento tal como essa saudade um dia faria, num dia em que o sol voltaria a brilhar.
Tinha saudade. Saudade do que nunca chegara a possuir..."

"Saudade", Joana.