"O sol ainda não se levantou, mas consigo ouvir, pela janela do meu quarto, alguns pássaros a chilrear. Acordo com o cheirinho a pão acabado de cozer. São horas de levantar. Chamo o meu irmão mais novo que ainda dorme embrulhado nos lençóis.
- Pedro, levanta-te! Senão faz-se tarde!
De olhos semiabertos, ele faz um grunhido e depois boceja. Preparo-me o mais rápido possível e corro para a cozinha. A minha avó já está a pé há cerca de uma hora e consigo ver o meu avô a colocar os cestos na carrinha.
- Ana! Anda ajudar a tua avó! - chama o meu pai quando nos encontrámos de saída.
Pego nas trouxas e no lenço da avó e levo tudo comigo. Já se nota a claridade no céu. Parece que o sol está com mais preguiça que no mês passado...acorda cada vez mais tarde.
Sentados na carroça ao lado dos cestos, implico com o meu irmão por ele me estar a puxar as tranças. Passado algum tempo, chegámos à vinha.
- Ana, podes ir brincar com os teus amigos. Nós tratamos do resto. Toma conta do teu irmão. - avisa a mamã.
Corro para junto da minha prima e o Pedro junta-se aos meus primos e outros meninos.
O sol espreita atrás dos montes e reflecte-se lá em baixo, no rio Douro.
Ouvem-se cânticos antigos, enquanto cortam os cachos de uvas e enchem os cestos. O meu irmão joga com o pião do Francisco e eu e a Rita fazemos bonecas com as folhas e os galhos partidos das videiras. A avó com o lenço na cabeça e um sorriso leve nos lábios canta, com toda a sua força, uma cantiga sobre o Porto antigo. O meu pai vai carregando os cestos para a carrinha, enquanto o avô os organiza. A vinha está cheia de gente que veio ajudar na vindima.
O sol já vai alto e a fome começa a apertar. É hora de abrir as trouxas de linho que trouxemos de casa. Sentado à sombra, o avô parte a brôa de milho feita de manhã pela avó e distribui-a juntamente com o salpicão e azeitonas. Servem água para as crianças e vinho para os adultos. Também há nozes e fruta.
Depois de estarmos de barriga cheia, fomos brincar às escondidas enquanto os nossos pais e avós continuavam na apanha. Mais tarde, os rapazes decidiram dar um mergulho no Douro para relembrar os dias quentes de Verão, enquanto eu e as restantes meninas ficamos a ajudar na vindima, comendo uvas aqui e ali sem que ninguém nos visse.
Os rapazes chegam do mergulho no rio e trazem um grilo que colocam no bolso do vestido da Rita. Ela quando o vê, começa aos gritos, enquanto os rapazes riem-se e fogem pelo meio das videiras.
O sol já se está a despedir e os cestos estão cheios. Amanhã cá voltaremos para encher mais cestos para depois o pai e o avô pisarem as uvas.
Despeço-me dos meus amigos e subo para a carrinha. Estamos de regresso a casa. O Pedro adormeceu no caminho. O frio faz-se sentir e as folhas laranja voam com o vento em direcção a casa."
"Vindima", Joana.
