
"Talvez por ser Primavera e ouvir os pássaros chilrear, o meu coração estava aberto a novas aventuras. Sentia a felicidade invadir-me quando o sol brilhava na janela e reflectia nas pequenas folhas que brotavam das tímidas árvores, lá fora. Sem saber porquê, o sorriso alcançava os meus lábios quando ouvia uma criança fazer uma pergunta ao pai.
Foi quando reparei que, sentado lá ao fundo, me olhavas por entre as cabeças das pessoas que ocupavam o espaço entre nós. Os teus olhos penetraram o meu coração e já não conseguia desviar o meu olhar, agora fixo em ti. Era como me prendesse para não me deixar fugir na primeira oportunidade que tivesse. Sentia-me intimidada com a situação mas, ao mesmo tempo, havia algo que me puxava para ti.
Sorrias subtilmente e desviavas o olhar para a janela. Uma memória surgia-me e tomava consciência que conhecia o teu sorriso.
Sorria para mim mesma. Já sabia onde o tinha visto... numa noite quente de Verão em que o céu estrelado e a lua cheia iluminavam a cidade estranhamente deserta. Nessa noite, caminhava perto da ria e os moliceiros baloiçavam suavemente como se ouvissem o ritmo de uma valsa. Uma cegonha sobrevoou a minha cabeça e pousou num pilar perto da ria. Trazia algo no bico que brilhava e que logo largou ali. Levantou voo.
Deixado no pilar estava um pergaminho enrolado num fio de ouro. Toquei-lhe e surgiu uma mão que se sobrepôs à minha. Um rapaz com o mesmo sorriso convidou-me para uma dança... Dançámos ao som da valsa silenciosa que os moliceiros ouviam. Numa noite quente, num luar majestoso, num silêncio ritmado.
Eu sabia que conhecia o teu sorriso... vi-o... uma vez num sonho..."
"Talvez por ser Primavera...", Joana.
Desenho por Joana, baseado numa fotografia do filme "Brigadoon".