segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Talvez por ser Primavera...


"Talvez por ser Primavera e ouvir os pássaros chilrear, o meu coração estava aberto a novas aventuras. Sentia a felicidade invadir-me quando o sol brilhava na janela e reflectia nas pequenas folhas que brotavam das tímidas árvores, lá fora. Sem saber porquê, o sorriso alcançava os meus lábios quando ouvia uma criança fazer uma pergunta ao pai.
Foi quando reparei que, sentado lá ao fundo, me olhavas por entre as cabeças das pessoas que ocupavam o espaço entre nós. Os teus olhos penetraram o meu coração e já não conseguia desviar o meu olhar, agora fixo em ti. Era como me prendesse para não me deixar fugir na primeira oportunidade que tivesse. Sentia-me intimidada com a situação mas, ao mesmo tempo, havia algo que me puxava para ti.
Sorrias subtilmente e desviavas o olhar para a janela. Uma memória surgia-me e tomava consciência que conhecia o teu sorriso.
Sorria para mim mesma. Já sabia onde o tinha visto... numa noite quente de Verão em que o céu estrelado e a lua cheia iluminavam a cidade estranhamente deserta. Nessa noite, caminhava perto da ria e os moliceiros baloiçavam suavemente como se ouvissem o ritmo de uma valsa. Uma cegonha sobrevoou a minha cabeça e pousou num pilar perto da ria. Trazia algo no bico que brilhava e que logo largou ali. Levantou voo.
Deixado no pilar estava um pergaminho enrolado num fio de ouro. Toquei-lhe e surgiu uma mão que se sobrepôs à minha. Um rapaz com o mesmo sorriso convidou-me para uma dança... Dançámos ao som da valsa silenciosa que os moliceiros ouviam. Numa noite quente, num luar majestoso, num silêncio ritmado.
Eu sabia que conhecia o teu sorriso... vi-o... uma vez num sonho..."

"Talvez por ser Primavera...", Joana.
Desenho por Joana, baseado numa fotografia do filme "Brigadoon".

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Meu, teu, nosso...



"O sol brilhava baixo e a praia estava deserta. Havia chovido há algumas horas e o céu ia animando-se, pouco a pouco, mostrando faixas azuladas por baixo das nuvens outrora ameaçadoras. A areia estava húmida, com marcas de alguns salpicos da chuva caída.
De mãos dadas, ignorámos a areia fria e pisámo-la em direcção ao mar azul e tranquilo, parecendo contrariar as nuvens cinzentas que restavam no céu. Gaivotas sobrevoavam as ondas e as algas enrolavam nos nossos pés.
Envolveste-me nos teus braços e beijaste-me a face, olhando o mar. Os meus cabelos revolteavam suavemente e eu sentia que te queria sempre comigo.
Voltaste-te para mim e suspiraste-me ao ouvido um "Amo-te" sentido. Os teus olhos brilhavam nos meus e o chão parecia fugir-me dos pés, elevando-me para tocar os meus lábios nos teus. O beijo doce que demos fez-me sentir que não queres mais ninguém, e que eu jamais sonharei com outra pessoa. Tornaste-te na personagem principal dos meus sonhos e dos quais não quero acordar. Levas-me a sítios que nunca vi, fazes-me sentir emoções que nunca senti, abraças-me como se não houvesse amanhã.
Pegaste-me na mão, sorriste-me e, sem me dizer uma única palavra, puxaste-me contra ti. "Vem comigo" - disseste com um sorriso matreiro.
Caminhámos à beira-mar durante um bocado, pontapeando as ondas e beijando-nos de vez em quando.
"Chegamos." - disseste.
A gruta que nos juntou estava na mesma, com as cores reflectidas nos rochedos e o som e o cheiro inigualáveis.
"Adoro este local...traz-me tão boas recordações..." - disse-te.
"Lembraste do nosso primeiro beijo?" - perguntaste-me.
"Sim. Como poderia esquecer?".
Selámos um beijo longo, naquele local secreto, o nosso esconderijo, o baú dos nossos sonhos, o fiel confidente do nosso amor...
Ali ficámos durante horas...Só nós."

"Meu, teu, nosso...", Joana.
Desenho por Joana, baseado numa imagem retirada do Google.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Porquê? Quero uma explicação



" O que sinto? Será paixão? Será amor? Não será nada? Nada não é de certeza. É algo forte e confuso. É querer tudo e não querer nada. É querer estar longe e perto ao mesmo tempo. É querer o fogo, é querer a água. Escolher o branco e pensar no preto. É contradição, angústia, temor. Não saber o que se quer. Gritar alto e querer silêncio. É a confusão total nos pensamentos!
Quero-te longe, empurrar-te, ignorar-te. Mas ao mesmo tempo, abraçar-te e beijar-te é o que anseio. Que terei eu? Estarei louca? O que sinto afinal?
Os pensamentos rodopiam como um tornado na minha mente. O meu coração está pequeno e fechado. Sinto um nó que se desfaz em lágrimas e tento perceber o que tenho. Que me fizeste para estar assim? Não me lembro de nada. Que fiz eu para me sentir assim?
Sinto-me perdida. Quero tudo e a tudo renuncio. Vejo-te muito triste, porque pensas que não te amo. Não sei que fazer. Sinto, novamente, vontade de te abraçar. Que se passa contigo? Perguntas. Não sei explicar. Respondo. Tudo está baço. Nada tem lógica. Está tudo ao contrário.
Quero entender porque estou assim..."

"Porquê? Quero uma explicação", Joana.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Às escondidas...



" 1...2...3...4...5... Ouvia-o a contar encostado ao pilar de granito, enquanto eu, escondida atrás do arbusto, esperava que o número 10 surgisse.
"10!"- Gritou. Comecei a ouvir passos e deixei-me ficar quieta para não fazer barulho. Começava a ficar com frio mas alguns raios de sol traquinas escapavam por entre os ramos do arbusto, aquecendo-me as pernas. O sol estava fraco e o frio era bastante. Também estávamos no pico de Dezembro! O rio que outrora convidava para um mergulho, agora estava gelado e as gaivotas permaneciam nas margens, olhando-o em busca de algum peixe mais distraído. O avô passou por mim com um molho de lenha para o forno, sorrindo e piscando-me o olho.
Ouvia risos. A Margarida foi descoberta! E o André conseguiu chegar primeiro ao pilar. O André ganha sempre as corridas...
Uma abelha! Que susto que apanhei! Consegui enxotá-la para longe. Comecei a ouvir passos mais próximos: devo ter feito barulho! O meu coração palpitava cada vez mais forte e os meus olhos, inconscientemente, arregalavam aos poucos.
De repente, o Tiago espreita pelo arbusto e eu vejo uns olhos castanhos brilhando na minha direcção. Tinha-me encontrado.
Corremos até ao pilar de granito para ver quem ganhava. A Margarida e o André chamavam o meu nome para me incentivar, mas o Tiago chegou primeiro. Tocou no pilar de granito, olhou para mim, sorriu e disse: Ganhei."

"Às escondidas...", Joana
Desenho por Joana.